Quero dizer à Companhia algo que sinto não devo calar!

Há palavras vindas do coração que são tão cheias de vida que não se conseguem calar e que não se devem calar! Foi o que aconteceu com o P. Pedro Arrupe; é o que acontece com o Papa Francisco; é o que deveria acontecer com todos os Jesuítas. Na Encíclica Dilexit nos, o Papa confessa que encontra no Coração de Jesus «uma das fontes mais íntimas da (minha) vida interio.1

A missão confiada à Companhia de Jesus de propagar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus (SCJ), não é uma missão atribuída externamente, mas tem origem numa profunda intuição espiritual de que a vida verdadeira reside no coração de cada ser humano. Um coração que é profundamente marcado pelo Coração de Jesus.

Quando entrei na Companhia, estava longe de entender um mínimo do que seria o SCJ. Estava preso às imagens que pouco me diziam e moviam. Estava preso às orações e jaculatórias cuja linguagem eu não compreendia. Durante o Noviciado, percebi que estava sobretudo preso ao meu próprio coração, sem espaço para arriscar entrar no Coração escancarado de Jesus.

Quando abri espaço para escutar a incompreensão e descontrolo do meu coração, desvaneceram-se os preconceitos imagéticos que tinha sobre o SCJ. Este tornou-se o centro do meu coração e oração. Levei a sério aquilo que já Santo Agostinho dizia: «não saias de ti, mas volta para dentro de ti mesmo, a Verdade habita no coração do homem».2 Andava à busca fora de mim, numa ânsia de controlar o mundo e transformá-lo à medida do meu coração, quando era a partir daí que Jesus me mostrava o mundo e a vida verdadeira. Foi ao buscar primeiramente o seu Amor, o seu Coração, que descobri o modo de proceder de Jesus – a Caridade.

Na verdade, o Papa repete que este Coração é a pessoa de Jesus inteira. Por isso, não é uma parte representativa, mas é totalmente o modo e o estilo de Jesus, ou seja, o Amor. Portanto, «o nosso modo de proceder» que a Companhia tanto repete é simplesmente o modo de proceder do Coração de Cristo.

Nas nossas Constituições reforça-se a necessidade de fazer «do amor de Cristo, simbolizado no culto do Sagrado Coração de Jesus, o centro da nossa vida espiritual, pelo qual evangelizaremos mais eficazmente as insondáveis riquezas de Cristo e fomentaremos o primado da caridade na vida cristã».3

Este é o primeiro passo para nós, Jesuítas, recebermos continuamente o «suavíssimo encargo, confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo, de praticar, promover e propagar a devoção ao seu diviníssimo Coração». 4

Praticar, promover e propagar – três palavras que orientam e esclarecem a nossa missão.

Antes de mais, somos chamados à prática da devoção que envolve uma abertura total de coração para deixar que o Coração de Cristo impregne com o seu amor todas as nossas intenções, orações e operações. Uma devoção prática, segundo a qual o Amor é comunicação e se coloca mais nas obras que nas palavras 5. Os Jesuítas, primeiro que todos, devemos ser testemunho desta devoção prática. Para isso, devemos ser fiéis aos Exercícios Espirituais, onde, através de «um diálogo de coração para coração» 6, somos introduzidos no conhecimento íntimo de Jesus e transformados interiormente pelo seu Coração.

Em segundo lugar, somos chamados à promoção da devoção que implica um investimento e uma renovação das formas de evangelização e a responsabilidade consequente. Promover não é repetir as palavras do séc. XVIII, mas traduzi-las em palavras e obras de amor para o séc. XXI.

Por fim, esta promoção far-se-á pela propagação da devoção. Se estivermos enraizados no SCJ, se o escolhermos como «o nosso modo de proceder», se caminharmos rumo à prática do Coração e à promoção responsável, então já estaremos no caminho da difusão deste Amor pelo mundo inteiro.

É possível que nós, Jesuítas, nos vamos esquecendo de que somos portadores desta missão. Por isso, convoco todas as pessoas a serem corresponsáveis nesta nossa missão de praticar, promover e propagar a devoção a este Coração. Interpelem-nos, relembrem-nos, reavivem a paixão pelo SCJ, ao ponto de desejarmos propagar, juntos, a sua devoção por todo o mundo.

1 Carta Encíclica do Santo Padre Francisco sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus Dilexit nos, outubro 2024, n.º 146.

2 Cap. 39, n.º 72 – n’ A verdadeira religião.

3 Normas Complementares n.º 233 – Constituições da Companhia de Jesus.

4 Congregação Geral XXIII da Companhia de Jesus.

5 Exercícios Espirituais, 230-231.

6 Dilexit nos, n.º 146.

António Ferreira da Silva, sj

(In Mensageiro do Coração de Jesus, maio de 2025)

© Bruno Kelzer (Unsplash.com)

Meditação Diária

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