A alegria ao poder!

Estamos na quadra das festas populares de São João. É dos santos que mais entraram no coração do povo. E a alegria festiva multiplica-se. Assim se cumpre a profecia do anjo a Zacarias, quando estava no templo, no exercício das suas funções sacerdotais: o filho que terás de tua esposa Isabel “será para ti motivo de regozijo e júbilo e muitos se alegrarão com o seu nascimento” (Lc 1, 14). Nós, felizmente, pertencemos a este número dos que cultivam a virtude da alegria.

Se não promovemos a alegria ao poder de nós próprios, quem comandará as nossas vidas será a imperatriz tristeza, aliada fiel do ditador pessimismo, tendo por cortesãs as lamentações sem fim de azedume irado.

A alegria não é um anexo alternativo para pessoas de caráter folgazão, com vida fácil e sem responsabilidades de maior. Deve ser, sim, um denominador comum das parcelas da nossa vida, independentemente de que tudo corra ao nosso gosto e seja preciso lutar contra o desânimo, a rotina e o cansaço. A alegria é um dever evangélico proclamado por Jesus: “Que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa” (Jo 15, 11). Uma alegria radical, de jubilosa qualidade.

A alegria não é um rebuçado gostoso para saborear em consumo próprio. A alegria é sobretudo uma missão. Os que vivem à nossa volta precisam do nosso bom humor, da nossa boa disposição e alegria. “Deus é alegria”, afirmou São Paulo VI, na sua exortação apostólica “Alegrai-vos no Senhor”. Viver na alegria é fazer publicidade do que é Deus, deixando transparecer no espelho da própria vida a nossa divina semelhança.

Na recente visita do Papa Leão XIV a Espanha, repetidas vezes exortou à alegria, sublinhando que “a fé é alegria”. Não uma alegria de sonho, mas realista a partir do concreto da nossa vida: “Descobristes o valor duma vida mais humana, mais plena, aberta ao encontro com Deus e à alegria da fé. Isto significa que, apesar das dificuldades, o lugar onde Deus se torna presente e onde devemos encontrar os seus sinais é sempre a realidade em que nos encontramos”.

Mesmo na lama das dificuldades e problemas, pode desabrochar a flor da alegria. Assim nasce mais purificada e bela. Por isso, São Paulo exclamava: “Estou cheio de consolação e transbordo de alegria no meio de todas as nossas tribulações” (2 Cor 7, 4). Esta alegria, não fruto de tudo ser fácil e agradável, mas amorosamente purificada, é uma alegria maravilhosa, como a de Jesus ressuscitado, vitorioso sobre o sofrimento e a morte.

A alegria não é um simples gosto dispensável ou uma devoção alternativa para pessoas de temperamento inclinado à bonomia, talvez ingénua, de quem vê a realidade com lentes cor-de-rosa. É uma missão apostólica de combate ao vírus da tristeza e do pessimismo, em favor de fomentar a ecologia da boa disposição, da festa e do júbilo. Por isso, insiste connosco o apóstolo Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo vos digo: Alegrai-vos! Que a vossa bondade seja conhecida por todos” (Fl 4, 4-5).

Um grande literato que conhecia bem a nossa língua, pois foi embaixador da França no Brasil, assim nos inculcou o feliz dever da alegria: “O único dever neste mundo é a alegria” (Paul Claudel). A alegria é porta de entrada para todas as virtudes. Perante um rosto irado e envinagrado, as virtudes fogem.

O mundo que nos cerca é como um espelho: se sorrirmos, ele nos sorrirá. Não percamos tempo a lamentar-nos da falta de alegria na família, no trabalho, na sociedade. Ofereçamos presentes de alegria e seremos nós os primeiros beneficiados. “A alegria é uma mercadoria maravilhosa: quanto mais se dá, mais se tem”, como nos recorda Pascal. No oferecer alegria é que está o ganho.

Não basta ser bom. É preciso pôr alegria na bondade. Assim nos avisa Deus por São Paulo, seu fiel porta-voz: “Deus ama o que dá com alegria” (2 Cor 9, 7). Dar não por favor, de mau humor e com constrangimento. Por isso, nos adverte Santo Agostinho: “Se deres o pão com tristeza, perdes o pão e o mérito”.

Urge promover a alegria ao poder. Ao poder que nos liberta da escravidão da tristeza e seus amigos e afilhados, como o pessimismo, o lamentacionismo e o derrotismo. Com Cristo, vencedor até da morte, teremos lugar no pódio da alegria pascal.

Manuel Morujão, sj

© Shushan Meloyan (Unsplash.com)

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