Que tem aquela imagem de Jesus a ver comigo?
A partir da Dilexit nos, Carta Encíclica do Papa Francisco.
Pensa numa igreja em que já estiveste.
Percorre, com a tua memória, o caminho até à porta principal. Entra e olha em volta: o Altar, o Sacrário, a Pia Batismal…
Qualquer que seja a igreja, é muito provável que, para além destes elementos, encontres, num estandarte de procissão, num altar lateral, ou mesmo à frente, no altar principal, uma imagem antiga de Jesus com um Coração a sair do peito.
É a imagem do Sagrado Coração de Jesus.
Conheces perfeitamente, e até já a viste várias vezes. Ainda assim, como diz o Papa Francisco na Carta Encíclica Dilexit nos, “Algumas destas imagens podem parecer-nos pouco atrativas e não mover muito ao amor e à oração”. É possível que pareçam imagens de um outro tempo, que não nos fazem sentido e com uma simbologia ou uma estética que parecem pertencer ao passado.
Se assim é, por que é que ali estão?
Talvez por ser preciso olhar para o Coração de Jesus, abrirmo-nos à relação que se estabelece entre o seu Coração e o nosso e perceber o impacto que isso tem nos que estão à nossa volta.
É muita coisa. Comecemos pelo coração. O coração é o “Centro Íntimo do Homem”. Abstrato?
Pergunta-te: “Quem realmente sou?”. Ainda que a reposta seja difícil, o caminho em direção a ela há de conduzir-te àquilo que é o teu coração.
É preciso distinguir o coração da inteligência e dos sentimentos. A inteligência e a vontade ao serviço do coração permitem-nos “saborear as verdades, em vez de as querer dominar”. A imaginação e os sentimentos, graças ao bater do coração, podem ser vividos com moderação.
Se é isto o coração, o Coração de Cristo vai simbolizar necessariamente “o centro pessoal de onde brota o seu Amor por nós (…) é lá que está a origem da nossa fé”.
O coração de Cristo é um coração de Carne e um coração de Deus. Contemplá-lo no Evangelho é encontrar o infinito no finito: a ternura dos gestos e palavras de Jesus manifesta-nos também o seu amor divino.
É esse encontro do teu coração com o Coração de Cristo, com o seu Amor, que te permite realizar o projeto de Deus para ti, dando a melhor resposta possível à pergunta de há pouco: “Quem realmente sou?”.
Se chegaste até aqui, proponho breves segundos de desconforto. Sei perfeitamente que estás, como eu, cansado de ouvir a expressão “De coração cheio!”. Está na descrição da fotografia que alguém publicou da sua Missão País, está na mensagem que enviaram para um grupo de WhatsApp depois de uma peregrinação, foi-te dita por alguém que assistiu a um qualquer momento ternurento.
Ouvir falar em “coração cheio” gera um revirar de olhos. E mesmo que esta expressão possa ser usada ao desbarato, ao ponto de se tornar um lugar-comum, há um ângulo para ela que nos tem de ser caro e que tem de ocupar um lugar único na nossa vida: o da experiência espiritual pessoal com o Coração de Cristo.
Aí o nosso coração fica verdadeiramente cheio. Por duas razões. Primeiro, é do Coração de Cristo que jorra a fonte de sacramentos e graças. Segundo, porque é unindo o teu coração ao d’Ele que podem ser amigos (quem diria) do coração. Aproveita para confiares ao Senhor as minudências do teu dia (mesmo aquela vez em que te esqueceste das chaves de casa). Quanto mais o fizeres, mais te vais abandonar na confiança e mais vais viver a verdade de que o amor de Jesus é personalizado a quem és, ao teu coração.
Uma vez de coração verdadeiramente cheio, é preciso que transborde para ser fonte para os outros. Não é novidade. Por isso, limito-me a deixar esta questão: em que é que o serviço que prestas aos irmãos se distingue de toda a solidariedade e obras de beneficência que vês à tua volta? Reza para que seja no amor cristão, que permite reconhecer a cada pessoa uma dignidade única.
É preciso garantir que, na Igreja, fazemos esforços reais para estar ao serviço, ao invés de simplesmente prestar serviços…
Volta à igreja e volta à tal imagem do Sagrado Coração.
Se estiver com pó, bem podes ser tu a tirá-lo. Já que aí estás, aproveita para deixar o teu coração nessa fonte da qual brotou a Salvação para a Humanidade. Ela vai salvar-te. Vai ajudar-te a chegar aos irmãos. Mesmo! Do fundo do coração.
Francisco Mendes
In Mensageiro do Coração de Jesus, abril de 2025





