O Corpo que partilhamos

Junho reúne duas das imagens mais belas da tradição cristã: o Corpo de Deus e o Coração de Jesus. À primeira vista, parecem devoções distintas, mas ambas apontam para a mesma verdade: não fomos feitos para existir separados.

Na festa do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo contemplamos Deus que se torna alimento. Não domina, não exige uma troca equivalente. Dá-se. Parte-se. Mistura-se com a fragilidade humana para criar comunhão. O Sagrado Coração de Jesus revela o interior dessa entrega: aberto, vulnerável, capaz de acolher sem calcular o mérito.

Talvez a grande dificuldade do nosso tempo seja esta incapacidade em sair da lógica da transação. Aproximamo-nos uns dos outros com uma pergunta em mente: “O que ganho com isto?”.

Mas a compaixão funciona de outro modo. Não nasce do cálculo, nasce do reconhecimento. A bondade não é algo que conquistamos. É algo que descobrimos no centro do nosso ser.

Quando entramos numa floresta, não julgamos cada árvore isoladamente. Apreendemos o conjunto. A beleza nasce dessa integração: árvores diferentes, ritmos diferentes, fragilidades diferentes, coexistindo no mesmo espaço. Talvez Deus olhe para nós assim. Mas nós insistimos em olhar-nos separadamente, classificando, comparando. Coexistimos sem comunhão.

A Eucaristia desafia esta fragmentação. Ao receber o mesmo pão, recordamos que pertencemos uns aos outros e que a fé não é um caminho solitário, mas uma aprendizagem de comunhão. O Coração de Jesus mostra-nos como: através da compaixão, da capacidade de permanecer aberto diante da fragilidade humana, a nossa e a dos outros.

Num mundo competitivo, talvez a experiência espiritual mais urgente seja reaprender a olhar a humanidade como se olha uma floresta: reconhecendo a beleza do conjunto vivo que formamos. Porque só quando saímos da lógica da transação começamos verdadeiramente a viver como Corpo.

Maria Betânia Ribeiro

© Shane Rounce (Unsplash.com)

Meditação Diária

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