O primeiro passo foi Jesus que o deu, importa não esquecer que o segundo é meu
O algoritmo que atua no mundo digital mostra que os nossos pensamentos e as decisões da nossa vontade são muito mais ‘standard’ do que pensávamos. São facilmente previsíveis e manipuláveis. Não é o caso do coração” (Papa Francisco, Dilexit nos [14.]).
Somos previsíveis e agora que sabemos a vida uns dos outros, ainda mais. Sinto-me cada vez mais levado por este algoritmo. Mesmo tendo optado há já alguns anos por não ter redes sociais, distraio-me e dou por mim a fazer alguma coisa só porque outros fazem. Digo «não tenho tempo», mas quando analiso com objetividade há tempo para podcasts e para ler a mesma notícia várias vezes em jornais diferentes. A verdade é que não é só o tempo de ecrã que aumenta, mas também a velocidade do resto da vida. Se hoje digo «sim» a tudo, tenho programas diários. Elimino por completo os tempos de silêncio e aborrecimento.
Quem realmente sou?… Como vou querer avaliar a minha existência quando ela terminar?… Quem quero ser perante os outros? Quem sou diante de Deus? Estas perguntas conduzem-me ao meu coração” – afirma o Papa Francisco.
Tempos de silêncio são muito importantes para aprofundar o meu conhecimento interior. Compreendo bem isto quando vejo grandes agitadores como Martin L. King, Mandela e Gandhi; todos tiveram tempo de silêncio na prisão. Santo Inácio teve o seu silêncio durante a recuperação, deitado na cama. Sendo cristão, é no silêncio que encontro Jesus, que o conheço e percebo o que é que Ele me pode estar a pedir.
O próprio Jesus, sendo 100% homem, também precisou dos seus tempos de recolhimento para se conhecer melhor e falar com o Pai. «Jesus saiu para o Monte das Oliveiras, como era seu costume» (Lc 22, 39).
Para me conhecer melhor e assim conhecê-lo melhor, o primeiro passo não é meu, mas já está dado. Foi Jesus que o deu. «Ele amou-nos primeiro» (cf. 1 Jo 4, 10), já se deu a conhecer e está à minha espera, eu é que tenho de ter a coragem de parar.
O 1.º passo foi Jesus que o deu, importa não esquecer que o 2.º é meu.
Já aconteceu, depois de paragens mais longas como Exercícios Espirituais (EE), ou mais curtas como o Exame de Consciência, estar convicto, o meu coração já se ter mexido, mas depois não tenho a coragem de dar o passo em frente ou vou adiando, desculpando-me de várias formas, uma das quais a necessidade de ter mais certezas. Isto tanto é válido para processos pequenos como para uma mudança radical de vida.
Já nos perguntaram, a mim e à minha mulher, quando é que tivemos a certeza que somos a pessoa certa um para o outro. Para nós, a única resposta possível é: nunca. Estamos convictos de que acertámos, mas nunca saberemos. Houve um momento em que tivemos de arriscar para nos aproximarmos do que Jesus sonha para nós, mesmo sem ter a certeza absoluta. Cabe-nos agora, com a sua ajuda, viver esta vocação da melhor forma.
Jesus, sendo 100% homem, também arriscou. Observamos isso em Caná, quando diz à sua mãe: «A minha hora ainda não chegou», mas acaba a fazer o que Maria lhe pede. Não só não tinha a certeza, como até achava que aquele não era o momento certo e, ainda assim, arriscou.
Jesus já nos deu força para realizar processos que nós não nos imaginávamos capazes de fazer, nós é que temos de arriscar e começá-los.
O 1.º passo foi Jesus que o deu, importa não esquecer que o 2.º é meu.
Se estou na engrenagem da vida: programas, Instagram, podcasts… tenho de ter coragem para parar. Jesus já está no silêncio à minha espera. Neste silêncio, entro no meu interior, conheço-o melhor e, com paciência, tento perceber o que é que Ele me pede. Depois do silêncio, preciso de ter coragem de novo, coragem para arriscar, porque nunca terei a certeza absoluta do que me é pedido.
Para ter esta coragem, ajuda-me pensar que bastam dois segundos, seja a ação grande ou pequena. Se preciso de parar pouco tempo, basta ter coragem para não levar o telefone para o quarto. Se preciso de parar mais tempo, basta carregar no «enviar» depois de preencher o formulário para fazer EE. Se o próximo passo é saber como está um amigo com quem não falo há anos, só preciso de carregar no botão de «ligar»: a partir do momento que está «a chamar», não há volta a dar. Se o próximo passo é procurar um novo trabalho, a coragem só tem de existir no momento de clicar no «enviar» de um e-mail. É mais fácil ter coragem se não pensar no processo todo de mudança, mas apenas no momento-chave.
Sinto que tenho de me manter atento, porque na vida estes ciclos repetem-se com frequência.
O 1.º passo foi Jesus que o deu, importa não esquecer que o 2.º é meu.
João Sousa Guedes
In Mensageiro do Coração de Jesus, março de 2025





