Com o coração nas (tuas) mãos
Senhor, como é tão fácil esquecer-me de ti.
Vivo num ambiente tão cheio da tua presença e mesmo assim… quantas vezes, ao longo dos meus dias, te retiro do lugar que é teu e que sei, tão bem, que é o que quero que tomes na minha vida. Já nem falo das vezes em que me é difícil rezar ou sequer dispor-me à oração.
Refiro-me, sobretudo, à disposição e à atitude perante a vida: na relação com quem me rodeia, desde os estranhos aos mais próximos, na relação com o trabalho, na administração do que sou e do que faço… também na forma como me relaciono comigo mesmo, o que espero ou exijo e descuido ou abandono, tanto de mim, como dos outros.
Sou mesmo lento para crer…
Se, por um lado, é tão fácil entender que «a realidade é maior que as ideias», por outro, aceitar o reconhecimento da minha pequenez implicado nesta verdade já não é tão evidente. Do medo inconsciente, da vulnerabilidade da minha condição nasce o instinto de querer dominar e controlar a realidade de tal maneira que dependa o mínimo possível seja de quem for. Por ter vergonha de ser pequeno, tenho vergonha de depender, porque isso implica aceitar diante do outro a minha pequenez. Deste modo, aprendo a usar as ideias como camuflagem das minhas feridas, levando-me, consequentemente, a uma busca pela vida de uma forma manca, cega, atrofiada. Qualquer que seja a minha expectativa em relação ao que me queres regalar com a vida, torna-se um referencial que me trai a perceção, chegando ao ponto de deixar de conseguir reconhecer o teu Amor como algo eterno, que é de sempre e para sempre. Não é que não me esperes, eu é que não me disponho a reconhecê-lo, pelo custo de aceitar a minha miséria.
Um coração ferido é um coração vivo (que precisa de cuidado)
A pequenez, a vulnerabilidade e a miséria não têm a última palavra! Aprendemo-lo de ti pela forma como abraças a paixão, te entregas à morte e, ressuscitando, te dás a cada um.
A forma como passaste o teu tempo na terra move-me a aceitar a humildade como caminho – a não desejar a honra e a dar a vida pela dignidade. Isto impele-me à devoção e ao desejo, que são respetivamente a estrutura e a matéria da oração. Nenhum destes é constante na minha vida, sofrem oscilações que, apesar de não compreender, acredito serem um lugar para a tua Graça habitar. Por vezes, a devoção, por não ser acompanhada de desejo, torna-se tão pesada e ascética que pode levar à sensação de que a nossa relação é, mais que tudo, um dever; por outro lado, pode acontecer também que, se o desejo se sobrepõe excessivamente, a oração acabe por se tornar um antro de necessidades, dominado pelo medo que me fecha à vida e te recusa como meu Salvador.
A falta de devoção resulta da ambição de honra, consequente do excesso de importância que me atribuo; e a falta de desejo é resultado do desprezo da minha dignidade, consequente da falta de respeito pela minha própria condição.
«Para tudo há um momento,
e um tempo para cada coisa debaixo do Céu»
Dou-te graças Senhor pela forma
como sempre me esperas,
mesmo quando te esqueço ou evito procurar-te.
Reconheço que sou o obstáculo
à comunhão contigo,
muito mais vezes do que gostaria.
Tu, que és manso e humilde de coração,
ensina-me a ser mais benevolente
e paciente com a minha condição.
Se for a tua vontade,
torna-me mais disponível para quem me rodeia.
Ensina-me a respeitar as minhas necessidades,
e que, confrontando-me com a minha debilidade,
seja corajoso o suficiente
para pedir ajuda e me deixar ajudar.
Que eu não me queixe tanto
do que me é dado viver;
que não me deixe escravizar pelas ideias
e os ideais de felicidade que fabrico,
e que, gradualmente, possa tirar
o devido proveito de cada momento da vida.
Peço-te a graça de ser mais agradecido,
e de não ceder tanto à renúncia
do que me é dado viver.
Senhor, espero em ti.
É com o coração nas tuas mãos que sei que esperas sempre por mim.
Lourenço Sarávia
In Mensageiro do Coração de Jesus, fevereiro de 2025
© Warren (Unsplash.com)





