É preciso sofrer
“Antigamente” só se ia ao médico quando uma pessoa se sentia mal. Hoje em dia, fazem-se exames com regularidade. No que diz respeito ao cuidado com as nossas emoções e com o equilíbrio bioquímico do cérebro, ainda estamos no antigamente. Só quando nos sentimos mal, ou muito mal – ou nem isso – é que pedimos ajuda. Assim aconteceu comigo: só fui a um especialista quando já me sentia sem forças para trabalhar.
Há cinco anos que consulto um ótimo psiquiatra e uma psicóloga clínica muitíssimo boa. A ação conjunta dos fármacos e da psicoterapia suavizou muito a minha vida, conduziu-me a um amor a mim mesmo e ao outro mais corajoso, mais sereno, mais concentrado e mais cheio.
Permitiu-me conviver de maneira frutífera com escritores e compositores de destaque. A leitura e a audição das suas obras têm estimulado o meu cérebro a raciocinar cada vez mais e cada vez melhor. O conhecimento dos obstáculos que ultrapassaram para conseguirem deixar-nos obras que elevam o espírito da humanidade a cumes nunca dantes imaginados anima-me a aplanar vigorosamente os meus próprios abrolhos psíquicos.
O estudo da vida dos santos tem-me ajudado a purificar as relações pessoais e a, em tudo, pedir ao “trampolim” que a graça de Deus é: “Mais alto, mais alto, mais longe, mais longe”1 para que um dia, “consumido de amor, vá habitar as estrelas resplandecentes”2.
Este caminhar a um tempo galvanizante e pedregoso, em que a contemplação do meu interior não autoriza a vanglória, assenta na procura de um equilíbrio entre o relaxamento e a tensão necessários à criação. A terapia e os químicos esbateram uma hipersensibilidade patológica, uma sensualidade avassaladora, uma “desconfiança terrível de mim mesmo”3, um sentimento de “não ser nada, de não poder querer ser nada”4, de ficar sempre aquém dos objetivos propostos, “sem ideal nem esperança”5. Assenta, ainda, numa luta por destruir o invólucro de betão da minha alma, coração e cabeça, permitindo, assim, a irrupção da luz que Deus me deu.
Muito está ainda por fazer. Nunca este caminhar terá fim. Prolongar-se-á, mesmo, por toda a eternidade. Mas os tratamentos permitiram-me caminhar com ideal e esperança.
Quando ainda muito feridos, o meu cérebro e a minha sensibilidade esquivavam-se ao contacto com os outros, encarados como uma ameaça permanente, para, assim, protegerem as suas chagas do contacto com um mundo que lhes chegava através de feridas em carne viva.
Um cérebro magoado e a sensibilidade doentia que o acompanha não permitem que a pessoa ame limpidamente, ame generosamente, ame amar a Deus “de todo o coração, de toda a alma, de toda a inteligência e ao próximo como a si mesmo” (Mt 22, 38.39). Por vezes, é-se maledicente, vê-se tudo negro: Portugal e a humanidade em descalabro, com o futuro tapado. Às vezes agride-se o próximo ou a si mesmo psicológica e/ou fisicamente.
Mas uma vez entregue ao cuidado de especialistas, nos casos de doenças tratáveis, o cérebro anseia por crescer, por fecundar, por
trabalhar, por criar, por amar. A pessoa encontra-se com o melhor de si e está pronta a perdoar e a compreender as falhas dos outros. E neles procurar o que de melhor eles têm.
Hoje, 21 de julho de 2026, na esteira da vitória de Espanha no campeonato do mundo de futebol, deixo uma palavra de incentivo a todos os que resistem a pedir ajuda:
“Não é propriamente raro ler ou ouvir entrevistas de antigos ou atuais jogadores de futebol que passaram por momentos complicados, depressões ou fases mais negras. Na verdade, o destino até consegue normalmente fazer com que esses mesmos antigos ou atuais jogadores de futebol sejam aqueles que, anos depois dos momentos complicados, das depressões e das fases mais negras, alcançam os dias mais bonitos. Ferran Torres [o marcador do golo que deu a vitória à Espanha] precisou de uma final de Campeonato do Mundo para entrar nesse lote”6.
Assim pode ser com o leitor. Mas, para isso, e como disse o treinador da seleção espanhola: “É preciso sofrer”. É preciso forçar-se a pedir ajuda.
1 Cf. Théodore de Banville, Le Saut Du Tremplin.
2 Ibid.
3 Cf. Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires.
4 Cf. Álvaro de Campos, Tabacaria.
5 Ibid.
6 Cf. artigo “Deus dá as coisas a quem mais as merece.” Ferran, o herói que ouviu todas as críticas e marcou um golo por 47 milhões de pessoas
Gonçalo Miller Guerra, sj
© Ivett M (Unsplash.com)





