O abandono dos velhos
Não passei a Páscoa em casa. Fui para o interior do país. Quando regressei, andei com a box para trás e fui ver o “Não é bem assim”, que nunca perco, de Sexta-Feira Santa. Apareceu-me logo um tema para este artigo. Estamos a viver o tempo de Páscoa e o Henrique Raposo lembrou-me os abandonados nestas alturas de festas e férias.
Em Portugal, todas as Páscoas, todos os Natais, todas as passagens de ano, todos os “agostos”, acontecem coisas cruéis. Os velhos (e, como o Henrique Raposo, eu gosto da palavra velho) são abandonados nos hospitais. As famílias vão de férias para o Algarve, para Cabo Verde, para o Brasil e deixam os seus velhos abandonados nos hospitais ou nas suas próprias casas.
Passou um pequeno vídeo da enfermeira Carmen Garcia, em que ela diz: “É demasiado fácil em Portugal desprezar os mais velhos ou mesmo abandoná-los e basta olharmos para o número de internamentos sociais que temos nos hospitais, basta irmos a uma urgência numa noite de Natal, basta irmos a uma urgência no mês de agosto”. Carmen Garcia telefonou a um filho a dizer que o pai tinha tido alta e ele respondeu-lhe: “Mas eu estou de férias e fico cá 15 dias”. E o hospital é que tem de resolver o problema do abandono deste pai por parte dos filhos. Esta enfermeira contou que arranjou uma senhora que tinha tido alta, por três vezes, porque os filhos garantiram que iam buscá-la e não apareceram. Esta velhinha sentiu-se tão abandonada que desistiu de viver e morreu uns meses depois. E, nestas situações, os hospitais nada podem fazer.
O que diria a comunicação social se uns pais fossem deixar os filhos ao hospital porque estão cansados, não estão para os aturar e querem ir de férias? Daria para muitos comentadores passarem horas a dissertar sobre o crime cometido por aqueles pais. O abandono de uma criança é crime, e bem, mas o abandono de um velho é aceite normalmente, embora seja um crime idêntico. Por alguma razão o suicídio dos idosos aumenta nas épocas das festas.
É triste, mas um cão tem mais proteção mediática, moral e jurídica do que um velho. Se a Carmen ligar à polícia a comunicar o abandono de um velho, a polícia nada pode fazer, mas se ela ligar à polícia a dizer que alguém está a maltratar um cão, há mecanismos legais para a atuação da polícia.
O abandono dos velhos não faz barulho, não deixa hematomas visíveis, mas corrói por dentro. A velhice deixou de ser presença e passou a ser incómodo, a experiência acumulada deixou de ser legado e passou a ser desprezada, a sociedade, apressada e narcisista, decide que quem já viveu muito já viveu o suficiente. É evidente que há casos de pobreza extrema, de velhos que não têm família, de velhos cujos filhos residem no estrangeiro, mas há muitos filhos que esquecem com facilidade tudo o que os pais fizeram por eles, como se o amor recebido não deixasse memória, apenas conveniência. Esquecem os sacrifícios que os pais fizeram por eles, as noites mal dormidas, as vigílias nas doenças.
O abandono instala-se nos silêncios prolongados, nas visitas adiadas, nas chamadas que nunca se chegam a fazer. É a frieza de relegar vidas inteiras ao rodapé esquecido do quotidiano, como se quem um dia nos sustentou pudesse agora ser arquivado entre compromissos sem importância. Muitos idosos são empurrados para quartos fechados, para
lares onde o tempo escorre sem testemunhas, para casas onde a televisão substitui o afeto e para os hospitais. Não é só solidão, é desumanização.
E o mais duro é que este abandono não é, muitas vezes, apenas falta de tempo ou condições, mas falta de vontade e de gratidão. Da incapacidade de olhar para a velhice sem medo, sem repulsa, sem a arrogância de quem acredita que nunca chegará lá. Esquecemos que cada velho é um mapa de sobrevivência, uma história que não se repetirá, uma memória que, quando se apaga, empobrece todos nós.
Abandonar os velhos é abandonar o futuro, porque é recusar a única herança que realmente importa, que é a dignidade humana.
Graça Pimentel





