Entregue por ti

Quando o médico disse «este bebé está com muito pouco líquido», o mundo desfocou-se. As lágrimas caíram descontroladamente e o medo de falhar era insuportável. Dias depois, já internada, ouvi prognósticos que cortavam a respiração: «Talvez seja melhor interromper… as probabilidades são mínimas». Naquela sala de espera, agarrados um ao outro, eu e o meu marido, chorámos como se já tivéssemos perdido a nossa Maria Madalena. Era um luto antecipado, uma dor que parecia não caber no corpo. Ao mesmo tempo, sentimos algo inexplicável: um abraço que nos elevava. Como a chaga aberta do Sagrado Coração de Jesus, estávamos trespassados pela incerteza, mas também inundados por uma paz que desafiava a lógica médica.

Sou a Beatriz e o meu marido é o Joaquim. A minha bolsa rompeu às 17 semanas e fomos inundados por um momento de muita incerteza. Tínhamos acabado de casar em maio de 2022 e estávamos a começar a construir a nossa vida em conjunto, cheios de planos e sonhos. Em novembro, quando tudo mudou e fiquei internada na Maternidade Alfredo da Costa, deitada numa cama durante três meses, nunca nos sentimos sozinhos. Sentimo-nos sempre ao colo de Nossa Senhora, protegidos pelo amor do Sagrado Coração de Jesus. A fé e as orações de tantas pessoas que nos apoiavam deram-nos força para seguir em frente, mesmo nos momentos mais difíceis.

Durante esse tempo, aprendemos muito sobre o significado da entrega, tal como o Sagrado Coração de Jesus que mantém aberta a chaga do lado, de onde brota a água viva. Essa ferida que parece dor é, na verdade, fonte de vida e amor. Foi assim que vivemos aqueles meses: entregues, confiantes, mesmo quando o medo e a incerteza tentavam aparecer. O Joaquim, o meu marido, esteve sempre presente, especialmente nas tardes em que podia ficar comigo. A sua companhia, as conversas, o apoio silencioso, foram o meu porto seguro. Mesmo com as limitações das visitas por causa da pandemia, aquele tempo juntos era precioso e sagrado.

Tínhamos planos de vida que tiveram de ser adiados, e isso foi difícil, mas percebemos que Deus tinha outros caminhos para nós. A nossa entrega foi aprendendo a ser mais profunda, mais confiante. A rotina no hospital ajudou-me a manter a cabeça tranquila e o coração sereno, e a presença do Joaquim foi fundamental para isso.

Quando a Madalena nasceu, a 13 de fevereiro de 2023, foi uma alegria imensa. Ela é uma miúda cheia de vida, alegre, com muita personalidade e saúde. É um verdadeiro sinal do amor de Deus na nossa vida, uma bênção que nos lembra todos os dias o quanto fomos sustentados pelo Sagrado Coração de Jesus e pelo colo de Nossa Senhora. Hoje, com dois filhos, olhamos para trás sem marcas dolorosas, mas com a certeza de que fomos amparados e guiados por um amor maior, que nos levou ao colo quando mais precisávamos.

A ressurreição não apaga as cicatrizes; dá-lhes sentido. Hoje, já com dois filhos, vemos que Deus não nos pediu para evitar a queda, mas para confiar que Ele nunca nos deixaria cair. Aquele choro na sala de espera não foi o fim – foi o princípio de um milagre escrito com lágrimas e fé.

Esta experiência ensinou-nos muito sobre entrega, confiança e amor. O Sagrado Coração de Jesus, com a sua chaga aberta, lembra-nos que o amor verdadeiro passa pela entrega total, mesmo quando dói. E foi exatamente isso que vivemos: uma entrega diária, uma confiança que nos sustentou nos momentos mais difíceis.

Beatriz e Joaquim Goes

In Mensageiro do Coração de Jesus, julho de 2025

@ Kaushal Mishra (Unsplash.com)

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