Quaresma de penitência feliz

Estamos entrando na Quaresma. É uma especial quarentena de preparação para a Páscoa.

Desde sempre, a Quaresma está associada à prática da penitência. Tem fraca fama a palavra e a prática da “penitência”. Liga-se a mortificação e abnegação, a jejum e abstinência, a renúncia e sacrifício. Mas nada disto pode ser um fim em si mesmo. Só vale enquanto meio para viver uma vida de qualidade, como terapia para alcançar uma boa forma humana e espiritual.

O Concílio Vaticano II assim nos adverte: “Estimule-se a prática da penitência, adaptada ao nosso tempo, às possibilidades das diversas regiões e à condição de cada um dos fiéis” (Constituição A Sagrada Liturgia, 110). E a Conferência Episcopal Portuguesa recomenda: “A penitência é uma expressão muito significativa da união dos cristãos ao mistério da cruz de Cristo. Por isso, a Quaresma, enquanto primeiro tempo da celebração anual da Páscoa, e a sexta-feira, enquanto dia da morte do Senhor, sugerem naturalmente a prática da penitência”.

Concretizando, com realismo, segundo o Papa Francisco: “O jejum mais difícil [e melhor] é o jejum da bondade”. O que importa é a nossa conversão a melhores seres humanos, a cristãos de mais amorosa qualidade.

Sugestões de penitências felizes

Fazer penitência por penitência é uma tortura pagã. Deus não nos quer profissionais do sofrimento, mas praticantes da vida em abundância. Como clarificou Jesus: desejo “que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa” (Jo 15, 11). Assim, apresento algumas propostas positivas de penitências que são fonte de felicidade.

A penitência de evitar, ou pelo menos diminuir, o que nos faz mal. Por exemplo: o tabaco ou o café, certos alimentos ou bebidas que são inimigos da nossa saúde. Velar pela nossa saúde é um exercício penitencial grandemente aconselhável, por razões de caridade.

A penitência de dominar a língua e o coração que a move, jejuando de palavras que têm o veneno da ira, da inveja, da maledicência. Assim nos advertia o Papa Francisco: “As murmurações podem matar, porque matam a fama das pessoas! É tão feio murmurar! No início pode parecer uma coisa agradável, até divertida, como chupar um rebuçado. Mas, no fim, enche o coração de amargura e envenena-nos também a nós”.

A penitência da discrição e da simplicidade, jejuando de elogios, gratificações e aplausos: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo, e o teu Pai, que vê no oculto, te há de premiar (Mt 6, 3-4). Como recorda uma expressão proverbial: “O barulho não faz bem. O bem não faz barulho”.

A penitência de renunciar ao protagonismo, à centração no nosso “eu”, que se torna um campo de concentração do egoísmo. Perante a tentação de nos fecharmos em nós próprios, repetir um refrão do jovem São Carlos Acutis: “Não eu, mas Deus”. Assim teremos tempo para rezar, para ler e meditar a Palavra de Deus, para participarmos na Eucaristia.

A penitência da partilha do nosso tempo, de afetos e de algum bem material. Como nos recorda Jesus: “Há mais alegria em dar que em receber” (At 20, 35). Abundam os necessitados e é de elementar justiça praticar a caridade, partilhar, oferecer.

A penitência de renunciar a ficar demasiado preso à televisão ou à internet, às redes sociais ou aos videojogos. Assim, teremos mais tempo e disponibilidade para contactarmos com as pessoas que fazem parte da nossa vida, para visitarmos alguém que está doente ou que vive sozinho.

A penitência de evitar palavras e atitudes contaminadas de pessimismo e derrotismo, que nos desanimam e destroçam a esperança dos que nos rodeiam. A penitência de jejuar de críticas e lamentações negativas convertendo-as em propostas positivas.

Apresentei algumas sugestões de penitências, particularmente recomendáveis no tempo da Quaresma. Não se trata de obrigações complicadas e pesadas. São, antes, caminhos de libertação e de genuína felicidade. Por aqui deve andar o seguidor de Jesus que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos” (Mc 10, 45).

Boa Quaresma, com penitências generosas e felizes, a caminho da Páscoa!

Manuel Morujão, sj

© Josh Applegate (Unsplash.com)

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