O melhor serviço é aquele que se adapta
(excerto do artigo publicado na secção ‘destaque’ da revista Mensageiro do Coração de Jesus, outubro de 2025)
Num texto intitulado O ofício de traduzir o Evangelho1, José Frazão Correia, sj defende que «se a história ensina alguma coisa, aprendemos com ela que sempre que a Igreja quis garantir a sua identidade combatendo e protegendo-se das mudanças culturais perdeu e perdeu-se».
Se trocarmos a palavra «Igreja» por «música», «arte» ou qualquer outra expressão da nossa cultura ou sociedade, veremos que é igualmente verdade. Lutar contra os tempos que mudam é perder e perder-se.
O compositor Gustav Mahler era alguém a quem muitos acusavam de ser subversor da tradição, ao abrir portas a todo o tipo de novas formas de inspiração para a música sinfónica. Ao fazê-lo, Mahler estaria a atacar a tradição, coisa imperdoável em alguém com as suas funções e responsabilidades enquanto diretor musical empregue pela corte imperial em Viena.

Nas sinfonias que compôs, encontramos instrumentos francamente absurdos na tradição sinfónica austro-germânica como são o gigante martelo de madeira da sexta sinfonia ou os chocalhos de vaca e o bandolim que aparecem na sétima sinfonia. A isto Mahler não chamou subversão ou absurdo, mas simplesmente a música a estugar o passo para se encontrar com o seu tempo e os novos modos de expressão. O mesmo se pode dizer do Frère Jacques transformado em marcha fúnebre infantil na sua primeira sinfonia ou a ambição desmesurada da oitava, que pede mil intérpretes em palco e pulveriza até mesmo a nona sinfonia de Beethoven, considerada até então o cume da montanha mais alta que poderia existir na cordilheira das sinfonias. «Como ousa este judeu de província ultrapassar Beethoven?» era o tom indignado das elites de Viena.
O ousado Mahler, crónico incompreendido, alvo de todo o tipo de críticas, ataques e até escamoteamento, defendia que essa arca sagrada a que os seus detratores chamavam tradição, na verdade era uma coisa bem diferente. Para Mahler, respeitar a tradição era cuidar de manter a chama acesa e não tomar conta das cinzas. Por outras palavras, era garantir que a tradição nunca se transformaria no fóssil de uma criatura extinta no passado e que aos nossos olhos custa acreditar que um dia foi algo vivo.
O próprio Papa Francisco subscrevia esta intenção, não se cansando de alertar as cabeças pensantes da Igreja nos quatro cantos do mundo que, por quererem honrar cegamente a tradição, corriam o risco de ser mais fiéis à formulação do que à substância. No fundo, o perigo de se «ser mais papista do que o Papa», como diz o povo.
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1 Brotéria, Volume 198-3, março de 2024





