I parte
Nota prévia. Neste artigo descrevo alguns comportamentos imorais. Nem pretendo atirar pedras nem me sinto superior. Eu também tenho comportamentos imorais, também já magoei muitas pessoas e não sei se reagiria muito diferentemente das classes possidentes aqui descritas, até porque nasci no seu seio. Numa altura do tempo litúrgico em que nos devemos arrepender (mais profundamente) dos nossos pecados, amar e não julgar incentivará Deus a perdoar-nos, pois Jesus disse: “Estão perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou” (Lc 7, 47).
Li hoje, 31 de março de 2025, que, no nosso país, uma rapariga foi expulsa do quarto em que vivia por ter engravidado.
Há 50 anos (e ainda hoje?), as então designadas criadas, hoje empregadas internas1, quando engravidavam, às vezes do patrão ou de algum filho, eram postas fora das casas onde trabalhavam. Tinham passado de úteis a estorvo. Não iriam poder trabalhar tanto como os senhores exigiam e aquele filho seria uma fonte de muitas maçadas de que toda a família se “tinha” de livrar e a solução era pôr mãe e nascituro na rua, bem longe da vista e da memória. Depois arranjava-se outra criada, a quem se explicava claramente o seu destino, caso engravidasse.
Contaram-me – nunca vi a prova – que, há umas dezenas de anos, algumas empresas estrangeiras estabelecidas em Portugal exigiam que, no contrato, as futuras empregadas aceitassem ser demitidas caso engravidassem. (Não sei se algumas portuguesas também o faziam.)
Igualmente há dezenas de anos, umas pessoas que conheci recolheram em casa uma adolescente provinda de uma instituição. Quando esta engravidou, “teve” de sair lá de casa. (Pelo que conheci dessas pessoas, confio que não a terão deixado na rua.)
Perante estes factos, a reação de alguns será de indiferença, impermeabilizados com o permanente caudal de desgraças, ou mesmo potenciais (!!!) desgraças que a televisão repete várias vezes por dia. Outros, terão uma vaga pena das vítimas. Algum santo – que os há – recolherá uma das raparigas, tal como a instituição existente nesses anos (Casa de Santa Zita, Lisboa).
Por seu turno, Deus irá falando, não só mas também, ao coração dos pecadores, sem nunca desistir, segundo a palavra de Jesus: “Quem de vocês (…) não (…) vai atrás da ovelha perdida, até encontrá-la?” (Lc 15, 4). E falará também a nós mesmos. A nós dirá: “Se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Também os pecadores amam aqueles que os amam. (…) Amai os vossos inimigos (…) e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é bom para com os ingratos e maus (!) (…) Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados” (Lc 6, 32.35.37).
Esta atitude divina é completamente diferente da atitude da maioria das pessoas e mesmo da maioria das que se esforçam por ser cristãs. Estes – nós – somos muito mais influenciados pelo que a sociedade pensa do que pelo Evangelho, que, por vezes (muitas?), não passa de palavras que, ao longo de dezenas de anos, entram por um ouvido e saem (rapidamente) pelo outro.
Há exceções. Quando São Charles de Foucauld (séculos XIX-XX) encontrou os tuaregues que tinham morto um grande amigo, disse: “Para me vingar, vou amá-los o mais que puder” (cito de cor).
Então temos de amar os pecadores? Sim. Todos? Sim. Mesmo os pecadores que se nos afiguram de uma monstruosidade única na História? Sim. Mesmo aqueles que torturaram e mataram toda a nossa família? Sim. “Todos, todos, todos”. Jesus não abriu exceções para ninguém. Nossa Senhora disse-nos que rezássemos pelos pecadores. Com certeza, não seria para rezarmos por eles e os tratarmos mal. Além disso, de certeza que Nossa Senhora não ficou a odiar quem condenou, torturou e matou o seu Filho. Ou, pelo menos, não deixou esse ódio, que pode perfeitamente ter sentido em algum momento, assentar no seu coração.
Mas tenhamos em conta que amar pode significar prender quem procedeu mal, como legítima defesa da sociedade e também para os impedir de pecar. Amar não é necessariamente proporcionar ao outro uma vida confortável. Só que prender não pode ser encarado como um castigo, muito menos como uma vingança, mas como um movimento de legítima defesa da sociedade e um ato de caridade para com a pessoa que cometeu o crime2, o que explicarei no próximo artigo. Direi, também, como é que podemos amar – efetivamente – as pessoas que nos fazem mal e as que cometem pecados monstruosos.
2 O sistema judicial, do qual o encarceramento decorre, tem vantagens enormes para a pessoa que cometeu o crime. (Falarei disto no próximo artigo.)
Gonçalo Miller Guerra, sj