Por baixo das perdas, a vida

Habituamo-nos às “cores” fortes da vida – o brilho do sucesso, a pressa dos desejos, a intensidade das paixões – e quase não reparamos numa tonalidade discreta que regressa sempre. Tentamos varrê-la das ruas, escondê-la do coração, sufocá-la sob as nossas conquistas. No entanto, ela volta, paciente e teimosa, como a erva que rompe a pedra: o verde da vida que insiste em nascer, mesmo onde julgávamos que tudo tinha terminado.

Esse tom verde fala-nos da nossa fragilidade. Quando o ardor se apaga e os projetos falham, quando percebemos que o nosso alcance excedeu as forças, resta-nos a humildade da terra. É dela que viemos e é nela que tudo volta a germinar. Este tempo de conversão recorda-nos que não somos feitos para possuir, dominar ou reter, mas para confiar. Até as nossas pegadas, um dia, se encherão de relva; e aquilo que julgávamos permanente será coberto por uma vida nova que não controlamos.

Talvez seja essa a esperança cristã: Deus trabalha no silêncio, como a semente escondida debaixo do chão. Enquanto procuramos sinais grandiosos, Ele faz crescer o essencial. E assim, por baixo das perdas e dos cansaços, já desponta, discreta mas firme, a promessa da Páscoa.

Maria Betânia Ribeiro

Manuel Rheinschmidt (Unsplash.com)

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