E fez-se luz
“A oração que se lê logo a seguir à comunhão, no quarto domingo da Quaresma, reza assim: “Senhor, Nosso Deus, (…) iluminai os nossos corações (…) para que pensemos sempre no que vos é agradável (…).
A oração coleta1 do terceiro domingo da Quaresma dirige-se a Deus nos termos seguintes: “Deus, Pai, (…) que nos fizeste encontrar no (…) amor fraterno o remédio do pecado (…)”.
Estas orações refletem bem o que se passou na história (verídica) que passo a narrar e que vos estimulo a imitar.
Um dia uma senhora disse-me: “Senhor Padre, ultimamente o meu marido chega a casa sempre maldisposto”.
Perante tal, fiquei um bocadinho embaraçado. A senhora quereria ouvir algumas palavras de consolo? Quereria que eu falasse com o marido?
De repente, fez-se-me luz [o Senhor iluminou o meu coração] e disse: “Minha senhora, abrace-o”.
Algum tempo depois, perguntei: “Então, o abraço tem resultado?”. A senhora corou muito e eu só disse: “Ótimo”.
Não sei pormenores do que aconteceu entre os dois, mas vamos imaginar:
O senhor chega a casa maldisposto. A senhora pergunta: “Então, o que é que se passa, pareces um bocadinho irritado”. Ele explica e o assunto fica por ali.
Daí a poucos dias, o senhor volta a chegar maldisposto. A senhora, paciente, diz-lhe algo como: “Deixa lá, vais ver que as coisas melhoram”.
Daí a mais algum tempo, o senhor volta a chegar alterado. A mulher, já menos paciente, diz: “Então, o patrão ainda te chateia? Pensei que já lhe tinhas dado para trás“.
Tempos depois, o senhor volta a chegar zangado com o patrão. Desta vez, a mulher não reage à má cara do marido. “Mau sinal”, pensa ele. Tenho de fazer um esforço para disfarçar esta má disposição.
O que é certo é que um dia chega furioso e a mulher “dispara”: “Isto assim não pode ser, vê lá se pões o patrão na ordem (!) porque eu não sou nenhum caixote de lixo onde vens despejar a má disposição. Não tenho de estar sempre a aturar essa tua má cara permanente; eu também tenho problemas e não te chateio com eles”.
O leitor imagine como é que o marido se sentirá da vez seguinte em que chegar maçado. Ao saber que, em casa, vai encontrar a mulher chateada, ainda fica mais desgostoso. Agora está duplamente desgostoso. Não só com o que se passa no emprego, mas também com o que vai encontrar em casa.
Com a sua zanga, a mulher não aliviou a frustração do marido. Conseguiu foi pô-lo ainda mais maldisposto; daí que eu tenha dito à senhora que o abraçasse.
O leitor acompanhe o meu raciocínio: O senhor chega a casa maldisposto e a mulher, para o confortar, abraça-o. Quando ele volta a chegar maldisposto, a mulher volta a abraçá-lo. Quando, à terceira vez,
estiver maldisposto e sabendo que vai ser abraçado, já entra em casa muito mais leve e diz: “Ó Nela, abraça-me que o teu amor está muito precisado”.
E assim a Quaresma dos dois vê-se cheia de coisas agradáveis a Deus, como quer a “oração a seguir à comunhão” do quarto domingo da Quaresma.
1 Oração que se lê imediatamente antes das leituras.
Gonçalo Miller Guerra, sj




